“O toureio é um acto de racionalidade e inteligência”

Victor Mendes assumiu direcção técnica e artística da Escola José Falcão.
Há um mês Victor Mendes assumiu a direcção técnica e artística da Escola de Toureio José Falcão em Vila Franca de Xira, substituindo o maestro José Júlio. No final de uma aula de toureio – inserida na festa da Lezíria, do Campo e do Cavalo, que decorreu no último fim-de-semana – falámos com o toureiro Vítor Mendes e dois “aspirantes” que sonham seguir-lhe as pisadas. O matador de toiros afirma que as novas funções são um desafio e uma responsabilidade. Diz que encontrou “os miúdos um pouco à balda, com falta de princípios técnicos” e revela as mudanças operadas por si na forma de ensinar a arte do toureio.

Jorge Afonso da Silva


Ficou lisonjeado com o convite para assumir a direcção técnica e artística da Escola de Toureio José Falcão?

Sim. Mas também consciente da responsabilidade. É um grande desafio e não deixa de ser um pouco conflituoso. Porque o que se procura é também atingir objectivos que não se conseguem de um dia para o outro. Como se houvesse essa facilidade de fazer toureiros. Isso não é assim. É preciso ter muita aficion e uma capacidade educativa de transmitir os princípios e o respeito entre os alunos. Os miúdos andavam um bocado à balda.

Como assim?

Deparei-me sobretudo com uma grande falta dos principais princípios técnicos. Se isso não se constrói de início, de raiz, dificilmente chegaremos longe. Tem que se incutir primeiro essas raízes e esses pilares técnicos e à posteriori ir evoluindo com treino no campo, com conselhos e com a capacidade que é diferenciada para cada indivíduo. O nível na Escola José Falcão baixou nos últimos três, quatro anos. Agora vamos tentar fazer com que volte a ocupar o lugar de destaque que já teve e que merece, tirando o maior partido dos jovens para serem futuros profissionais.

Está implícita alguma crítica a quem o antecedeu?

A intenção não é criticar. Há métodos e métodos. Se para montar no cavalo tenho de ir pelo lado esquerdo é contraproducente se o fizer pelo lado direito. Temos de estar em cima dos alunos, de ir com eles ao campo, de os acompanhar e ser capazes de lhes transmitir os conhecimentos e a ambição para que possam progredir.

Que mudanças é que já operou?

Levá-los muitas vezes ao campo. Alguns miúdos – não todos porque estão a níveis diferentes de treino no salão – já foram a 14 ou 15 tentaderos no campo. E sobretudo método. Aqui treina-se às quartas, quintas e sextas entre as 16h00 e as 19h00 e aos fins-de-semana das 10h00 às 13h00.

Quando chegou havia seis alunos. Em apenas um mês esse número subiu para 14. Há algum que tenha condições para vir a ser toureiro profissional?

Nem todos os jovens desta escola chegarão a toureiros. Como numa qualquer outra escola nem todos chegarão a médicos ou engenheiros. É importante não esquecer que também estamos a formar pessoas. Mas vejo em pelo menos três dos miúdos talento – que é muito raro – e com conhecimentos técnicos mais avançados, para serem toureiros. Mas é muito difícil. Talento só não chega. É preciso uma conjugação de circunstâncias e de vários factores.

Tais como…

Ter uma grande aficion, paixão, presença de espírito, capacidade, fé no indivíduo, muita entrega e ambição. E depois ter esse talento que é muito raro e difícil de encontrar. Por vezes falamos na sorte, quando leva consigo preparação, esforço, ambição, inteligência e decisão. Nestas idades também é difícil. É bom não esquecer que estes miúdos de 15,16,17,18 anos estão também em formação de personalidade. O toureio em si é um acto de racionalidade e inteligência. Ser capaz de humilhar um toiro - que em qualquer momento nos pode pôr entre a espada e a parede ou até matar - não está ao alcance de todos.

Quais são as grandes diferenças do seu tempo para agora?

Uma principalmente. Há um certo facilitismo. Há 40 ou 50 anos havia outro sentido ético da profissão e outra touraria. E conseguir oportunidades era muito mais difícil. Hoje em dia a um novilheiro são-lhes dadas oportunidades. Vai ao campo e toureia vacas inteiras. Na minha época não. Toureava as meias e para dar três ou quatro passos era uma sorte (sorrisos).

Exigiu algumas condições para poder desenvolver o seu trabalho?

Pedi para que os miúdos possam viajar. Isso não me pode é custar a mim. Como sempre fiz em tudo na minha vida entrego-me com o desejo de fazer as coisas e conseguir objectivos. O projecto tem pés para andar. Depois há também a preocupação da câmara municipal e da sua presidente, bem como dos responsáveis pela escola, no sentido de que os miúdos tenham oportunidades para tourear e, essencialmente, formação e conhecimento de causa do que é a arte do toureio. Não esquecendo também as nossas reminiscências culturais e tradicionais. O toiro, o campo, uma certa ruralidade e sobretudo o factor histórico. Vila Franca de Xira é uma cidade referência na formação de toureiros, que deram a nível internacional, uma grande projecção de Portugal no campo da tauromaquia.

Acha que Vila Franca de Xira ainda mantém essa importância?

A intenção é a de fazer um esforço para manter. Não é fácil. O que é um facto é que da parte dos responsáveis políticos e de índole social – as tertúlias e o clube taurino – estão a conjugar esforços para que se mantenha o interesse e se fale de Vila Franca de Xira e da festa dos toiros. E é isso que nós temos de defender.

Esse papel tem vindo a ser perdido?

Claro que as coisas não são como há quarenta ou cinquenta anos. Mas há objectivamente a intenção de se criarem condições para manter esse papel de relevo. Isso é que deve ser realçado.

Duas esperanças do toureio nacional

Miguel Mortinho tem 18 anos. Há quatro entrou para a Escola de Toureio José Falcão e há ano e meio começou a tourear novilhadas. Natural de Vila Franca de Xira, o jovem revela as diferenças que nota depois da entrada do maestro Víctor Mendes. “A formação e os treinos são diferentes. Agora há muitos tentaderos e mais oportunidades. Anteriormente não havia. Passaram poucas semanas mas já se nota uma grande diferença”, revela Miguel Mortinho.

O vilafranquense frequenta o 12º ano na Escola Secundária Gago Coutinho em Alverca, à noite, para poder treinar durante o dia. “O meu maior sonho é ser figura de toureio. O tempo o dirá se irei lá chegar. O crer é muito importante”, salienta o jovem que é o primeiro na família a enveredar por uma profissão ligada à festa brava.

Ao seu lado, e depois de terem toureado no tentadero da Escola José Falcão na manhã de domingo, 2 de Maio, está Tiago Restolho, 18 anos. Depois de ter andado na escola do Montijo – onde mora – passou por Sevilha e há cerca de um mês ingressou na José Falcão. “Nas outras escolas faltavam muitas vezes a força e a garra que o maestro Vítor Mendes imprime. Não existia esse incentivo para que tivéssemos a fazer as coisas como elas são. Penso que aqui deve ser o sítio em Portugal que mais hipóteses nos dá, para seguirmos esta carreira”, afirma o jovem.

Tiago Restolho faz muitos sacrifícios para poder aprender com o mestre Víctor Mendes. Trabalha em vez de estudar para poder ir aos treinos. Vai e vem, desde o Montijo, todas as semanas de autocarro e comboio. Mas não tem dúvidas de que vai valer a pena. “É preciso uma grande paixão. Também é isso que pretendo fazer para o resto da vida por isso há que apostar forte”, garante.

Na sua opinião a humildade, o crer, o espírito de sacrifício e a paixão pela profissão são essenciais para se singrar no mundo dos toiros. Exemplos próximos não devem faltar já que Tiago Restolho provém de uma família ligada à festa brava de forcados e bandarilheiros.

Fonte: O Mirante

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“Se há característica irritante em boa parte do povo português é a sua constante necessidade de denegrir e menosprezar o que é feito dentro de portas. Somos uma nação convicta de que nada de bom pode sair da imaginação do português comum e que apenas o que nos chega do exterior é válido e interessante.”