Um graffiter integrado no sistema


Rodrigo Nunes fez profissão da arte de pintar paredes
Vile (nome artístico de Rodrigo Nunes) sobrevive profissionalmente da arte do graffiti. É assumidamente um “graffiter institucional”. Só pinta em locais considerados legais e recusa a ideia de que graffiti é decoração se não for contra-poder. Esta arte não tem que ser marginal, garante.

Pintar paredes de forma artística é a profissão de Rodrigo Nunes. O graffiter assina os trabalhos como Vile e a marca deste jovem de 25 anos está espalhada por vários locais de Vila Franca de Xira, a zona onde reside. A paixão pelo graffiti surgiu há 12 anos, mas há cerca de três resolveu abraçar a arte de pintar paredes como uma profissão e sobrevive só do graffiti. Faz trabalhos de norte a sul do país para câmaras municipais, discotecas, bares e empresas que pedem produção de logotipos.

As ofertas profissionais começaram a surgir depois de ter ganho um concurso nacional de graffiti em Oeiras há cerca de quatro anos. A câmara começou então a propor-lhe trabalhos remunerados com maior regularidade. “Em Oeiras são mais abertos a este tipo de iniciativas. Em Vila Franca é precisamente o contrário. Já perdi a conta ao número de propostas que apresentei e que ficaram sem resposta”, acusa.

De momento, Vile, é uma espécie de “graffiter institucional”, mas assegura não se sentir diminuído com o termo. “Se quiser fazer disto a minha vida também tenho de ser um pouco institucional. É bom ser conhecido e não posso estar a recusar trabalhos só porque estão ligados ao poder local. Tenho de ser profissional e pensar em termos de oferta”, explica.

Esta opção limita os temas política e socialmente. Ao trabalhar para determinada câmara municipal a crítica não poderá ser dirigida “ao patrão” para “não ferir susceptibilidades”. Contudo recusa que graffiti sem ser contra-poder seja apenas decoração.

“Podemos sempre enveredar por outros temas. A política é um tema tabu, mas há sempre a saúde, o ambiente, temas mais globais”, confessa, acrescentando que encontrar o equilíbrio é um desafio ainda maior.

Apesar de hoje as pinturas já serem consideradas arte admite que quando começou a pintar, o que fazia podia ser considerado vandalismo. “É um pau de dois bicos porque enquanto não aprendemos a arte as pessoas olham e vêem só rabiscos e não gostam”, explica. Rodrigo considera que é preciso experimentar para evoluir mas admite que há um lado negativo do graffiti que leva a maior parte das pessoas a ter uma ideia pejorativa sobre este tema.

“São dois lados da mesma moeda: arte e vandalismo. Há sempre a pintura que as pessoas param e olham e transmite-lhes alguma coisa, algum sentimento. Mas há também o portão do vizinho que está riscado de spray, os comboios com as janelas tapadas com desenhos e isso as pessoas já não gostam”, conclui. “O problema do graffiti é que é totalmente anárquico, não tem regras. Há os que defendem a arte e os que acabam por vandalizar propriedade privada”, diz com um encolher de ombros.

Rodrigo tirou um curso de ilustração e desenho que lhe deu a formação para que as pinturas tenham alguma qualidade artística e não sejam apenas rabiscos. Hoje em dia pinta apenas em paredes ditas legais e é um graffiter integrado no sistema.

Para travar a proliferação do graffiti como vandalismo, Rodrigo aponta como solução mais apoio por parte das câmaras que permitam aos jovens pintar murais de forma legal. “Em Vila Franca há muitos sítios abandonados em que se pode pintar. O problema é a falta de apoio aos jovens e a falta de eventos. Se existir uma agenda cultural mais actual e virada para os interesses dos jovens de hoje em dia isso facilita porque o graffiti não tem de ser uma arte marginal”, conclui.

Fonte: O Mirante - Patrícia Cunha Lopes

2 comentários:

gonsa disse...

Tens muita qualidade naquilo que fazes.
Força Vile, boa sorte para o futuro.

Alter Ego disse...

Vile, fazes do graf música e as latas são a tua orquestra! RESPECT!!

 

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