Ricardo Araujo Pereira - Boca do Inferno




Um mundo de coisas que não são o que dizem ser



Vivemos em tempos estranhos. O Rally Paris-Dakar, primeiro, deixou de começar em Paris, e agora já não acaba em Dakar. Continua a chamar-se Paris-Dakar, mas umas vezes parte de Lisboa e outras disputa-se integralmente na América do Sul. É como aquelas belíssimas mulheres transexuais que, apesar da aparência irrepreensivelmente feminina, continuam a chamar-se José António. O mesmo acontece com o Rally Paris-Dakar, a Roberta Close do desporto automóvel, que actualmente deveria chamar-se Rally Localidade da Argentina-Outra Localidade da Argentina.

Outro caso é o do Estoril Open, que costuma decorrer em Oeiras. Por muito difícil que fosse atrair Roger Federer ao Oeiras Open, talvez o torneio merecesse ter uma designação mais rigorosa. Ninguém nega que o desporto português é fértil em falcatruas, mas continua a ser estranho pensar que muitos vencedores do Estoril Open podem nunca ter posto os pés no Estoril.

O Rock in Rio, por outro lado, de vez em quando não tem rock, e na maior parte das vezes não é no Rio. Concedo que o Miscelânea de Géneros Musicais in Chelas seria um pouco menos comercial do que o Rock in Rio, mas quem não se orgulharia de ter um bilhete para assistir ao concerto dos Megadeth no Miscelânea de Géneros Musicais in Chelas?

Mais recentemente surgiu o PEC, o Programa de Estabilidade e Crescimento, que não tem proporcionado estabilidade nem estimulado o crescimento. De um certo ponto de vista, bem entendido. É verdade que o desemprego se mantém estável no valor mais elevado de sempre e temos assistido ao crescimento da contestação social. Reconheço que se trata de um programa de congelamento dos salários (o que os torna admiravelmente estáveis) e crescimento da carga fiscal. Mas a estabilidade política e o crescimento da economia não têm sido atingidos com o mesmo desembaraço. Recordo que o Programa de Estabilidade e Crescimento corrigia o Programa de Governo, circunstância que aproxima dois mundos distintos: a vida política e a televisão portuguesa. Em ambos há vários programas, mas é raro haver um que se aproveite. E, por isso, sente-se que o país suspira por um Programa de Desordem e Ruína. Um plano que, prosseguindo a tradição de fazer o contrário daquilo a que se propõe, nos livrasse miraculosamente da crise. Creio que é disso que Portugal precisa: ironia política. Parem de nos tentar salvar. Tentem afundar-nos, a ver se não estamos na vanguarda da Europa dentro de seis meses.



in clix.visao.pt

 

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“Se há característica irritante em boa parte do povo português é a sua constante necessidade de denegrir e menosprezar o que é feito dentro de portas. Somos uma nação convicta de que nada de bom pode sair da imaginação do português comum e que apenas o que nos chega do exterior é válido e interessante.”