Ricardo Araújo Pereira - Boca do Inferno


We all live in an expensive submarine




Imagine que um misterioso submarino captura três homens, que são obrigados a permanecer no seu interior e a participar em aventuras incríveis, entre as quais se conta uma luta sangrenta com lulas gigantes.

Agora imagine que dois misteriosos submarinos não capturam ninguém, embora haja cerca de uma dezena de arguidos à beira de serem capturados por causa deles, e que, até chegarem ao seu destino, participam em aventuras incríveis, entre as quais se conta uma luta sangrenta com uma fatura gigante.

A primeira história é ficção científica; a segunda história é Portugal que é como a ficção científica, mas menos verosímil. A primeira foi inventada por Júlio Verne; a segunda saiu da cabeça de Paulo Portas, que também efabula com talento.

Afinal é a ficção que imita a vida ou a vida que imita a ficção? No resto do mundo, não sei.

Em Portugal, é a vida que imita a ficção científica.

No livro de Júlio Verne, o submarino bate-se com lulas gigantes. A compra dos submarinos portugueses, ao que parece, teve a intervenção de um polvo razoavelmente grande. As boas histórias de submarinos acabam sempre por envolver cefalópodes de grande porte, tanto na realidade como na ficção. A diferença é que, nas Vinte Mil Léguas Submarinas, a tripulação do submarino consegue matar as lulas o que maravilhou de igual modo os entusiastas da ficção científica e os apreciadores de calamares. Em Portugal, o polvo continua a operar em várias áreas. O lince da Malcata e o polvo da administração pública são as duas espécies mais protegidas do País.

Só a primeira é que está em vias de extinção.

Outra semelhança: ficção e realidade são igualmente imprevisíveis.

Nas aventuras do Nautilus, somos surpreendidos a todo o momento por peripécias inesperadas. Na história do Arpão e do Tridente, ninguém conseguiria prever que dois submarinos orçados em 769 milhões de euros fossem acabar por custar mais de 1000 milhões.

Enfim, a afeição dos grandes artistas pelos submarinos é conhecida. Mas, em certos setores artísticos, o público é menos tolerante com as extravagâncias subaquáticas dos autores. Quando os Beatles lançaram a canção Yellow submarine, na qual proclamavam que vivemos todos num submarino amarelo, a generalidade da crítica supôs que os versos tinham origem não tanto numa intenção metafórica quanto numa relativamente prolongada exposição a substâncias alucinogénias.

No entanto, não há muita gente que ponha em causa a lucidez dos autores da aquisição de dois submarinos por 1000 milhões de euros em tempo de crise. Curiosamente, os Beatles devem ter faturado quase tanto com o seu submarino amarelo como nós gastámos nos nossos dois submarinos pretos.

O investimento em submarinos imaginários revela-se mais ajuizado do que a compra de submarinos reais. Fossem os governos de Portugal compostos por músicos toxicómanos, em lugar de políticos ponderados, e teríamos um país mais próspero. Aqui está uma ideia que os manuais de ciência política têm ignorado.



in clix.visao.pt


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“Se há característica irritante em boa parte do povo português é a sua constante necessidade de denegrir e menosprezar o que é feito dentro de portas. Somos uma nação convicta de que nada de bom pode sair da imaginação do português comum e que apenas o que nos chega do exterior é válido e interessante.”