Ricardo Araújo Pereira - Boca do Inferno


O namoro à moda antiga na política à moda moderna




Quando, perante uma plateia de castelhanos indefesos, José Sócrates afirmou, e cito, que "Piara dianciar el tianguio sion neciessiarios dios" ("Para dançar o tango são necessários dois", segundo o grupo de especialistas que trabalhou durante duas semanas na tradução da frase) estava a fazer mais do que falar espanhol. Aliás: provavelmente, a única coisa que não estava a fazer era falar espanhol. Com uma frase apenas, Sócrates produzia três efeitos políticos importantes. Primeiro, demonstrava que se fala de mais na qualidade do seu inglês técnico e de menos na do seu espanhol coloquial. Segundo, prosseguia a bonita tradição iniciada por Brites de Almeida, molestando espanhóis. Enquanto Brites usava a pá de padeira, Sócrates preferiu a língua de Cervantes. Também aleija. Terceiro, elogiava a postura de Pedro Passos Coelho, o que constituiu forte agravo: o primeiro-ministro sabe perfeitamente que insultar o líder da oposição é muito menos ofensivo do que elogiá-lo. Foi naquele momento que a relação de ambos ficou inquinada para sempre.

Agora, a vida política portuguesa parece um namoro à moda antiga. Numa primeira fase, Sócrates e Passos Coelho dançaram o tango, e agora não podem encontrar-se a sós se não estiver presente um pau-de-cabeleira. Com todo o respeito que me merece a introdução do conceito de chaperon na política, pergunto-me se não seria mais útil uma baby-sitter. Até porque, para sermos rigorosos, embora tenha algumas marcas típicas do namoro, a relação entre o primeiro-ministro e o líder da oposição distingue-se dele em alguns aspetos essenciais, a saber: num namoro normal e saudável, o objetivo principal, se não for o único, é desapertar o cinto; sempre que Sócrates e Passos Coelho se encontram, toda a gente acaba a apertá-lo. No fim de um namoro tradicional, o noivo pede a mão da noiva; no namoro de Sócrates e Passos Coelho, pedem-nos ambos o couro e o cabelo. Sendo diferenças subtis, são ainda assim muito importantes.

Quando Passos Coelho disse que não voltaria a encontrar-se com Sócrates sem a presença de testemunhas que pudessem ouvir a conversa, terá dado um passo importante para a credibilização da vida política. É sempre bom que um acidente (ou um crime) seja presenciado por testemunhas. "Qual destes senhores teve primeiro a ideia de nos ir ao bolso?", perguntará a polícia em determinada fase da investigação. E as testemunhas terão oportunidade de contar o que ouviram. A minha sugestão é que sejam testemunhas de Jeová. Além de testemunharem a conversa, ainda podem citar a Sócrates e Passos Coelho o livro do Apocalipse, que parece estar para breve.

in clix.visao.pt


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