Ricardo Araújo Pereira - Boca do Inferno


Um acordo para a fotografia





São as vicissitudes da vida moderna: não há ato, por mais privado que seja, que não possa ser tornado público, seja por descuido ou maldade. Inúmeras atrizes, cantores, modelos e profissionais liberais em geral já tiveram fotografias ou vídeos comprometedores difundidos na internet. Essa divulgação de imagens privadas, normalmente de cariz sexual, é repugnante e só diverte gente sem escrúpulos. Sempre que dou comigo a assistir a esse tipo de filme fico envergonhado com a minha própria falta de escrúpulos. Creio que assisti sete vezes ao filme íntimo de Pamela Anderson só para confirmar que não me restava um pingo de dignidade neste corpo pecador. Durante o sexto visionamento fiquei com a sensação de que ainda havia em mim dois ou três escrúpulos, mas as dúvidas desfizeram-se ao sétimo: não tenho salvação. Esta semana, reincidi. Não com o filme de Pamela Anderson, mas contemplando uma imagem talvez mais obscena: mão maldosa captou uma imagem íntima do ministro Teixeira dos Santos e do ex-ministro Eduardo Catroga no preciso momento em que eles combinavam fazer ao povo português o que aquele senhor cheio de tatuagens faz à Pamela Anderson.

A fotografia tem tanto de obsceno como de surpreendente, e é isso que excita a curiosidade dos mirones: ninguém esperava ver Teixeira dos Santos e Catroga juntos. Homens que pertencem a partidos tão diferentes, com políticas económicas completamente díspares, de repente, e sem que nada o fizesse prever, chegam a um acordo. Após muito esforço, inúmeras negociações e importantes cedências de ambos os lados, os dois maiores partidos de Portugal conseguiram fazer aprovar um orçamento que toda a gente acha péssimo. Ufa!, por momentos pareceu que não iria ser possível chegar a um entendimento. Podemos, finalmente, suspirar de alívio.

Ou não? Parece que ainda é cedo. Apesar do entendimento, a taxa de juro da dívida portuguesa continuou a subir. Os "mercados", que é como se chama agora aos especuladores, não ficaram totalmente convencidos com este acordo. Não se conseguiu aplacar por completo a ira dos mercados. Todos os sacrifícios já prometidos não chegam para os apaziguar. Talvez tenhamos de sacrificar uma virgem. Embora os mercados já tenham demonstrado que preferem sacrifícios de desempregados e reformados, é possível que, desta vez, não haja alternativa. Alguém que ofereça uma virgem aos mercados, a ver se eles se acalmam. Parece uma prática um tanto primitiva, mas não sei se será menos digna que o orçamento.


in clix.visao.pt


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“Se há característica irritante em boa parte do povo português é a sua constante necessidade de denegrir e menosprezar o que é feito dentro de portas. Somos uma nação convicta de que nada de bom pode sair da imaginação do português comum e que apenas o que nos chega do exterior é válido e interessante.”