Ricardo Araújo Pereira - Boca do Inferno



O comentador que não ousa dizer o seu nome






O leitor está familiarizado com o Teorema do Macaco Infinito? Se, como eu, é tão apreciador de teoremas como de macacos infinitos, estará certamente. Mas àquele reduzido número de leitores que não têm interesse especial por proposições demonstráveis e símios eternos, posso revelar que se trata de um teorema que afirma o seguinte: se um macaco martelar aleatoriamente as teclas de uma máquina de escrever durante um tempo infinito, acabará por, quase de certeza, dactilografar um texto como, por exemplo, as obras completas de Shakespeare. Não é, admito, um teorema a que se adira com facilidade. O bom senso diz-nos que o mais provável é que o macaco use os primeiros dez minutos do tempo infinito para partir a máquina de escrever e depois passe o resto da eternidade a comer bananas infinitas. Além disso, é um teorema difícil de provar, sobretudo tendo em conta a escassez de macacos infinitos - que obstaculiza o progresso científico de várias maneiras. Foi dessa frustração teórica que parti para postular o muito mais facilmente verificável Teorema do Ser Humano Finito. Diz assim: se certos seres humanos martelarem as teclas de um computador durante um tempo que não precisa de ser infinito, acabarão por, quase de certeza, dactilografar um texto que exprime opiniões próprias de um macaco. A experiência decorre, com um sucesso assinalável, nas caixas de comentários dos jornais online.

Enquanto o fenómeno aguarda a atenção de coprologistas abalizados, é possível a qualquer leigo identificar dois padrões particularmente salientes: primeiro, o fascínio que as caixas de comentários exercem sobre os primários, os ressentidos e, sobretudo, sobre os primários ressentidos; segundo, o modo como essa sedução se acentua quando se trata de notícias de crimes. Neste caso, os comentários variam pouco, ao passo que o seu destinatário varia bastante: "Pena de morte para gente desta em Portugal, já!" é a opinião mais popular, mas pode dirigir-se ao criminoso ou à vítima, se esta for homossexual.

Embora os energúmenos, individualmente considerados, não obtenham a atenção e o respeito de ninguém, enquanto grupo parecem merecedores de reflexão. Um estúpido, quando associado a outros estúpidos iguais, faz pensar. Foi o que aconteceu agora, a propósito dos comentários sobre a morte de Carlos Castro. A existência de um número razoavelmente vasto de cavernícolas cibernéticos provaria que a lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo, por exemplo, seria desadequada à sociedade em que vivemos. Mas, se aquele grupo indefinido de primatas anónimos é, seja de que maneira for, representativo da nossa sociedade, é possível que todas as leis sejam desadequadas, com a única excepção da nunca regulamentada lei da selva. De igual modo, a manifestação de solidariedade para com um adulto que confessou um homicídio especialmente cruel, levada a cabo por 400 cantanhedenses, foi pretexto para concluir que a nossa legislação talvez esteja desfasada do sentir do bom povo. No entanto, segundo a Associação Nacional de Municípios, Cantanhede tem uma população de 38 920 habitantes. Significa isto que 38 520 cidadãos - ou seja, 98,9% da população - ficaram em casa. Parece-me uma percentagem bastante eloquente. Ainda assim, sou sensível à opinião da ínfima minoria e não ficaria chocado se fossem feitos alguns acertos legislativos: manter-se-iam em vigor as leis actuais para quem vive em Cantanhede hoje, e retomava-se o articulado da Carta de Foral para regular a actividade de quem vive na Cantanhede medieval.



in clix.visao.pt


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“Se há característica irritante em boa parte do povo português é a sua constante necessidade de denegrir e menosprezar o que é feito dentro de portas. Somos uma nação convicta de que nada de bom pode sair da imaginação do português comum e que apenas o que nos chega do exterior é válido e interessante.”