Dancing The 90′s Away - Parte I



Uma crónica de quem viveu de forma mais ou menos intensa a década do BOOM da música de dança em Portugal. 
 No início dos anos 90, estilos como o House e o Techno (e outros que andavam à volta) não se encontravam muito difundidos, apesar de haver ecos do fenómeno “Acid-House”, e de haver sítios que passavam esse tipo de som, como o Alcântara-Mar, o Kremlin, o Frágil ou a Oasis (discoteca de Troia, e da qual cheguei a ter gravado em cassete um set, onde se ouvia Acid-House e congéneres).

 Ainda cheguei a ouvir relatos das célebres festas semi-clandestinas algures em Xabregas, dentro do verdadeiro espírito “Acid-House”. Mas como só em 1992 comecei a sair à noite (algures entre os meus 17/18 anos), até aí só conseguia estar informado através da imprensa ou através de programas de rádio como o já saudoso Central Park, que era transmitido aos sábados à tarde na Rádio Comercial e que com o sucesso que começou a teve, em poucos meses passou a ser transmitido de segunda a sexta, com o nome de 4º Bairro.

 A música nesses programas era seleccionada, numa fase inicial, por um tal de Tó Pereira, que era na altura o DJ residente no Kremlin e que também tinha uma rubrica na revista Supersom, onde falava dos discos que ele achava que estavam ou iriam estar a fazer sucesso na discoteca ou em noutros locais que apostassem no mesmo tipo de sonoridades. Depois, a música começou a ser seleccionada pelo João Daniel, também DJ. Mais ou menos por essa altura foi inaugurada uma nova rádio, a Rádio Energia, onde sextas e sábados à noite se ouviam, entre a meia-noite e as duas da manhã, sets do já mencionado Tó Pereira e era onde se ouvia o que mais “cutting edge” se fazia em termos de música de dança/electrónica.

 Na altura, quando saía à noite, era para sítios na minha zona (entre Palmela e Setúbal) e aqui ainda era tudo muito convencional, só a espaços se ouviam coisas minimamente interessantes, pois apostava-se no mais acessível dentro da música de dança – o famigerado Euro-Dance já fazia das suas com o “hits” Pop/Rock à mistura (e não só, ainda se ouviam muitas coisas da década anterior), e por vezes ainda se levava com umas musiquinhas para os casalinhos mais apaixonados dançarem um “slow”.

 Felizmente houve um dia que decidiram fazer uma festa na discoteca Fábrica (em Setúbal), onde trouxeram pela 1ª vez o Tó Pereira, o João Daniel e o Luís Leite (residente do Alcântara-Mar). Eu e uns amigos fomos e ficámos a saber como era estar uma noite inteira a ouvir a música que realmente queríamos ouvir e dançar, sem ter de levar com “interrupções”. Para nossa surpresa, estava uma casa bastante composta. Em breve, com alguns amigos a atingir os 18 anos e a tirar a carta, começámos a ir para Lisboa (se bem que umas quantas vezes íamos e vínhamos de comboio). Optávamos sempre por ir para a 24 de Julho. Do Bairro Alto interessáva-nos o Frágil, mas como na altura (entre 92/94) tinha fama de ser um local bastante inacessível, optávamos por ir para o Kremlin, que desde logo se tornou no local de eleição.

 O Alcântara-Mar era porreiro e a música era boa, mas o Kremlin tinha na altura qualquer coisa que ainda hoje não consigo definir, não existem palavras que descrevam o que sentia quando lá ia. A casa em si tinha boa vibração e o sistema de som devia de ser um dos melhores de Lisboa (se é que não seria do país inteiro). A decoração também era mudada frequentemente (a que mais me ficou na memória foi uma que era inspirada nos “designs” das grandes “labels” norte-americanas da altura como a Strictly Rhythm, Tribal, Emotive, Murk, Nervous, Eightball…). A selecção musical, a cargo do Tó Pereira e durante uma breve estadia, do Mário Roque e do Jiggy (na altura também excelentes DJs), estava a anos-luz de qualquer outro sítio que conhecia da altura.

 Lembro-me de o som por vezes ser tão poderoso, que tinha de estar ou de costas ou de frente para as colunas, porque se virasse para aí os ouvidos, começava a sentir-me desconfortável. A clientela também era bastante aberta a nível musical, dançava-se horas a fio sem parar, num ambiente que misturava de forma certeira “glamour” com “underground”. Os DJs preocupavam-se em passar boa música, e não havia ainda separação entre estilos (recordo-me de no Kremlin ouvir numa mesma noite tanto discos do DJ Pierre, como dos Murk, como da Barbara Tucker, como do Dave Clarke, como do Sven Vath). E nomes como Robin S ou Reel 2 Real eram por lá ouvidos bastantes meses antes de chegarem aos “tops”.

 Pouco tempo depois, Tó Pereira mudava o nome para DJ Vibe, e em conjunto com Rui Da Silva (também conhecido como Doctor J), editam, como Underground Sound Of Lisbon, através de uma “label” criada em conjunto com António Cunha – a Kaos – um 12” de nome Chapter One, onde constava o tema So Get Up, que cedo atraiu as atenções para o que se passava aqui em Portugal.

 Na altura, os melhores DJs portugueses eram fortemente influenciados pela cena “underground” norte-americana, sobretudo a facção nova-iorquina, onde pontuavam DJs como Danny Tennagglia, DJ Pierre, Tony Humphries, a dupla Deep Dish ou Junior Vasquez (o residente do célebre Sound Factory). Este último, quando recebeu uma “promo” do Chapter One, ficou desde logo maravilhado com o So Get Up, e igualmente maravilhado ficou quem estava no Sound Factory nessa noite…tanto que Vasquez o passou mais duas vezes na mesma noite, e a clientela do Sound Factory a agradecer, dançando de forma frenética (segundo consta…). Mais tarde foi editado pela Tribal, com remisturas tanto do próprio Vasquez como de Danny Tennaglia.

 Foi também por esta altura que surgiu uma produtora de festas, a Question Of Time, cujo mentor era o já citado João Daniel, e que nos primeiros tempos chegou também a estar associada à Kaos. Organizavam festas em vários sítios, mas a melhor foi sem dúvida alguma a Medieval Groove , onde vieram pela 1ª vez actuar Derrick May e Charlie Hall dos Drum Club (em conjunto com o DJ Vibe, o Luís Leite e o próprio João Daniel). Eu estive nesta festa e posso-vos dizer que foi das melhores a que fui na vida. Para já ouvi pela primeira vez um dos meus heróis a passar som (Derrick May) e o excelente ambiente, a boa-vibração e a sensação de liberdade, por estar num espaço ao ar livre, augurava um futuro não menos que radioso para a cena da música de dança em Portugal. (Quando somos muito jovens somos mesmo muito ingénuos…).

 Cedo a Question Of Time optaria por abrir uma loja de discos em Lisboa, em Campo de Ourique, e abriria também o Climacz, um dos primeiros espaços a apostar nos “after-hours”. Muitas vezes saí do Kremlin para ir acabar a noite (bem, geralmente até já era de dia…) no Climacz e por lá parava todo o tipo de fauna noctívaga, não fosse o Climacz também um local “underground” por excelência (em todos os sentidos da palavra).

 Pessoalmente, em termos de selecção musical, gostava mais de ouvir o A.Paul (e, numa fase posterior, o Lino e o Model 9000) do que o João Daniel (“trippy & trancey” demais para o meu gosto). E aqui, em termos de sonoridades, já se começava a sentir uma influência musical de teor mais europeu, ou seja, já se estava a fugir um bocado à predominância da cena norte-americana, e a ir-se buscar coisas de editoras europeias, sobretudo inglesas, alemãs e holandesas. Por esta altura (algures entre 1994/95) em Setúbal a coisa já estava um bocadinho mais animada, pois tínhamos o TGV e o Clubíssimo (o Model 9000 costumava passar lá som, e foi também aí que um tal de DJ Costinha, que hoje é conhecido como MaGaZino e que também já foi conhecido por Del Costa se iniciou nas lides gira-disquistas) a passar coisas bastante interessantes, o problema é que ainda se estava muito preso aos esquemas mais convencionais e no meio da música de dança tínhamos que levar com os êxitos Pop/Rock da altura, numa tentativa de se agradar a gregos e a troianos. Havia também o ADN, mas esse dedicava-se ao Rock mais Indie/Alternativo, e música de dança/electrónica era coisa que na altura não se ouvia por lá…

 Entretanto tanto a Kaos como a Question Of Time começaram também a editar discos de uma forma mais séria, discos esses que iam sendo bastante bem recebidos lá fora, chegando também a ser editados por editoras como a Tribal ou a Bush. Começaram também a vir mais vezes cá DJs internacionais como Eric Powell, DJ Pierre (está na memória uma excelente actuação dele no Kremlin…wild pitch i love you, indeed), Stacey Pullen, Tony Humphries, Jaydee (o tal de Plastic Dreams) ou Danny Tennaglia (estas dois últimos noutra grande festa de referência no Castelo de Santa Maria da Feira), entre outros, e que voltavam maravilhados com a boa-onda e ambiente das festas/noites aqui em Portugal. De realçar que as festas em Portugal, ao contrário das célebres festas da era “Acid-House” no Reino Unido, eram todas organizadas de forma legal, e com as autoridades a não porem grandes entraves à realização das mesmas. Cedo começaram a surgir artigos em revistas como a Musik ou a Mixmag a falar de “A Paradise Called Portugal”. E, de facto, coisa parecia estar encaminhada nesse sentido…

Por: Eduardo Martins para: RDB

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