Ricardo Araújo Pereira - Boca do Inferno


Homenagem ao candidato desconhecido




Depois de uma longa e cuidada reflexão, o Partido Comunista Português resolveu escolher, como candidato ao mais alto cargo da nação, um senhor. Trata-se, sem dúvida nenhuma, de um indivíduo. E, embora possa ser precoce afirmá-lo sem investigação mais profunda, creio que estamos na presença de um cidadão. Neste momento, é tudo o que podemos dizer de Francisco Lopes - o que, não sendo pouco, na verdade é um pouco menos do que podíamos dizer de António Abreu em 2001, quando este foi escolhido pelo PCP para derrotar Jorge Sampaio. Para vencer Cavaco Silva, antigo primeiro-ministro e actual Presidente da República, o PCP aponta um candidato que nem os militantes comunistas sabem exactamente quem é. Claro que não quero com isto sugerir que as eleições presidenciais sejam um concurso de popularidade. Julgo que, apesar de tudo, os concursos de popularidade são um pouco menos frívolos.

Não posso deixar de me condoer quando penso na sorte dos especialistas em marketing que vão ser incumbidos da tarefa de elaborar os cartazes da candidatura de Francisco Lopes. Se me permitem, deixo algumas sugestões de slogans que podem vir a ser úteis em momentos de crise criativa. Por exemplo: "Vota Francisco Lopes (que é o senhor que aparece neste cartaz. A sério)." Talvez pudesse ser uma boa apresentação do candidato ao povo português. Outra hipótese: "Vota Francisco Lopes. A maior parte das pessoas que integram o comité central sabe quem ele é." É um slogan que aponta um conjunto alargado de cidadãos que podem avalizar as qualidades do candidato. Mais uma proposta, um pouco mais agressiva: "Francisco Lopes: o candidato da esquerda que o PS não apoia (até porque nunca ouviu falar nele)." Trata-se de um cartaz que farpeia o Bloco de Esquerda por se juntar ao candidato apoiado pelo partido do governo. Avançando com Francisco Lopes, o PCP sabe que não há qualquer hipótese de o seu candidato ser apoiado por mais ninguém. Por último, proponho: "Francisco Lopes. A força do carisma." Mas talvez sem a fotografia.

Sendo surpreendente, a escolha do PCP parece inserir-se no padrão de candidaturas destas presidenciais, em que os partidos de esquerda apoiam candidatos de outros partidos: o Bloco de Esquerda apoia Manuel Alegre, que é o candidato do PS, e o Partido Comunista apoia Francisco Lopes, que é o candidato do PCUS, o Partido Comunista da União Soviética. Francisco Lopes parece uma escolha de Brejnev, embora um pouco mais conservadora.

Com esta candidatura, o PCP consegue ser extravagante na ortodoxia, o que requer talento. A escolha é tão previsível que apanhou toda a gente de surpresa. E, no panorama político específico destas eleições, é única. Fernando Nobre é o candidato independente. Manuel Alegre, que nas últimas eleições era um candidato independente, nestas consegue ser, até agora, o candidato apoiado por mais partidos. E Francisco Lopes emerge como o único candidato que, sendo apoiado por um partido, é tão desconhecido no meio político como um independente. Tem tudo para agradar a toda a gente.



in clix.visao.pt


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“Se há característica irritante em boa parte do povo português é a sua constante necessidade de denegrir e menosprezar o que é feito dentro de portas. Somos uma nação convicta de que nada de bom pode sair da imaginação do português comum e que apenas o que nos chega do exterior é válido e interessante.”