Ricardo Araújo Pereira - Boca do Inferno



Sensibilidade e bons censos






Embora os dados não tenham sido ainda compilados e processados, já é possível tirar uma conclusão a partir dos Censos 2011: a população portuguesa é maior do que o Instituto Nacional de Estatística pensava.

Ao longo dos primeiros dias de recenseamento, o site do INE foi várias vezes incapaz de suportar a quantidade de cidadãos que pretendiam introduzir os seus dados. Num povo que tradicionalmente deixa tudo para a última hora, esta urgência recenceadora não pode deixar de se estranhar. Creio que o motivo da precipitação é evidente: os portugueses querem responder ao questionário enquanto ainda têm dinheiro para pagar a internet.

O preenchimento dos questionários requer conhecimentos profundos de filosofia, o que pode contribuir para que os cidadãos se demorem no site mais do que seria de esperar. O INE pede, e cito, respostas "com rigor", caso contrário o cidadão "estará a impedir a nitidez e o rigor do retrato do País e das medidas que, a partir dele, vierem a ser tomadas". No entanto, na questão sobre o modo como se exerce a profissão, o INE indica: "Se trabalha a recibos verdes mas tem um local de trabalho fixo dentro de uma empresa, subordinação hierárquica efetiva, e um horário de trabalho definido deve assinalar a opção 'trabalhador por conta de outrem'". Ou seja, neste ponto, o INE pretende rigor na falta de rigor. Há que ser rigoroso na bandalheira.

Quem preenche o inquérito tem o dever de ser verdadeiro na aldrabice que vai prestar. Filosoficamente, é uma operação complexa. Se o cidadão se encontra numa situação laboral ilegal, deve assinalar que se encontra numa situação laboral legal. Se não o fizer, "estará a impedir a nitidez e o rigor do retrato do País e das medidas que, a partir dele, vierem a ser tomadas." Seria triste que, por causa de uma informação verdadeira mas fornecida com pouco rigor, fossem tomadas medidas para resolver um problema que existe mas torna o retrato do País um pouco menos nítido.

A orientação do INE devia mesmo estender-se a outras perguntas. Há mais áreas de atividade cuja resposta menos rigorosa pode contribuir para desfocar o retrato do País. No capítulo laboral, fazia falta uma indicação a profissionais habitualmente esquecidos: "Se o cidadão furta autorrádios, deve assinalar a opção 'trabalhador independente na área das tecnologias'". Na área da habitação, haveria que orientar algumas respostas: "Se reside debaixo da ponte, deve assinalar a opção 'morador em open space com vista para o rio'." Só assim é possível tirar um retrato mais rigoroso e nítido a um País. Embora ninguém saiba que país é esse.



in clix.visao.pt


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“Se há característica irritante em boa parte do povo português é a sua constante necessidade de denegrir e menosprezar o que é feito dentro de portas. Somos uma nação convicta de que nada de bom pode sair da imaginação do português comum e que apenas o que nos chega do exterior é válido e interessante.”